Archive for the ‘Pensamentos aleatórios’ Category

Boa nova

Friday, April 30th, 2010

Resolvi fazer Ciência da Computação há muito tempo. Faz tanto tempo que eu não lembro quando foi, mas acho que eu tinha uns oito anos. Minha única certeza é que eu não fazia ideia do que era o curso (mas isso não importa — hoje acho que escolhi estudar uma das coisas mais legais que existem).

O tempo passou e cogitei fazer outras faculdades, mas nunca seriamente. Começou o 3º ano do Ensino Médio e comparei os currículos de UFSC, UNICAMP, ICMC-USP e IME-USP pra decidir que curso escolher. Ordenei-os (por motivos teóricos) da seguinte forma:

  1. IME-USP
  2. ICMC-USP
  3. IC-UNICAMP (engenharia)
  4. UFSC

Desde lá minha meta foi entrar no lugar onde hoje, felizmente, estou. Mas não foi fácil.

Passei o último ano do Ensino Médio namorando estudando, li os resumos dos livros exigidos e quando chegou novembro… não passei na primeira fase do vestibular da Fuvest.

(Felizmente passei na UFSC e vivi um ano sensacional. Morava do lado da Universidade, fiz grandes amigos, conheci professores do mais alto nível, me classifiquei pra final mundial da Maratona de Programação e aprendi mais Matemática do que em toda a vida. Mas nem todos têm a mesma sorte.)

O vestibular da USP usa um terrível sistema baseado em carreiras.

Def. Carreiras são conjuntos disjuntos não-vazios de cursos universitários que em geral tem algo em comum (e.g., uma carreira pode ter Engenharia de Produção e Ciência da Computação porque ambos são cursos pra seres humanos — não sei se poderia haver alguma outra razão mais específica, sem ser através da Lei dos Cinco, mas creio que não).

No sistema da USP o candidato escolhe uma carreira, cursos que gostaria de fazer nessa carreira e sua ordem de preferência.

Passam pra segunda fase do vestibular três vezes o número de vagas disponíveis na carreira. Depois da segunda fase, os candidatos são ordenados de acordo com a nota da segunda fase e roda-se um algoritmo assim:

1
2
3
4
5
6
7
8
for (int pos = 0; tem_vagas_sobrando() && pos < n; pos++) {
    for (int opcao = 0; opcao < 4; opcao++) {
        if (tem_vagas_no_curso(pessoa[pos].opcao[opcao])) {
            da_vaga(pessoa[pos], pessoa[pos].opcao[opcao]);
            break;
        }  
    }  
}

Estava com sono e dificuldade de pensar quando postei. Outra hora tento passar pra uma língua menos nerd.

São os institutos que decidem em que carreira seus cursos vão entrar e o negócio fica uma bagunça. A maioria das carreiras têm cursos iguais com diferença apenas de período (diurno e noturno), mas há carreiras de institutos inteiros (a FEA, por exemplo, tem apenas uma carreira onde coloca Economia [diurno e noturno], Administração [diurno e noturno], Ciências contábeis [diurno e noturno] e Bacharelado em Ciências Atuariais), de cursos iguais em diferentes campi (na carreira de Direito, por exemplo, o candidato pode escolher entre o Largo São Francisco e Ribeirão Preto) e, por fim, carreiras como a minha: Engenharia na Escola Politécnica e Computação, que oferece (versão Fuvest 2010):

  • Engenharia Civil e Engenharia Ambiental (poli)
  • Engenharia Elétrica (ênfases: Automação e controle, energia e automação elétricas, sistemas eletrônicos, telecomunicações) (poli)
  • Engenharia Mecânica e Engenharia Naval (poli)
  • Engenharia Química, Engenharia Metalúrgica, Engenharia de Materiais, Engenharia de Minas e Engenharia de Petróleo (poli)
  • Engenharia de Computação e Engenharia Elétrica (ênfase Computação) (poli)
  • Engenharia Mecânica – Automação e Sistemas (Mecatrônica) (poli)
  • Engenharia de Produção (poli)
  • Bacharelado em Ciência da Computação (IME!)

Reza a lenda que essa era uma carreira que tinha todos os cursos que classificam como Exatas (uma classificação ridícula, na minha opinião) e todos eles foram saindo, até que no meu ano sobraram só as engenharias da Poli e o BCC.

(E eu prefiro acreditar nisso porque me doeria acreditar o contrário — aceitar que em certo momento da História algum idiota professor decidiu que Ciência da Computação tem mais a ver com Engenharia Ambiental do que com Matemática.)

Agora veja o problema: Em um ano aqui, aprendi que trabalhar em bancos está na moda em São Paulo. Como se formar em engenharia na Escola Politécnica é garantia desse nobre emprego, fazem um monte de cursinhos (e turmas especiais neles) voltados a destruir o cérebro das ensinar crianças (o link é bom; clique!) pra jihad passar na Fuvest. O resultado é que um catarinense que quer entrar no Bacharelado em Ciência da Computação não consegue nem passar da primeira fase do concurso. Se passa pra segunda fase, ainda assim precisa competir com estudantes que colocaram o BCC na quarta opção para não decepcionar os pais e seu ego caso não passem nas três engenharias que desejam.

E não para por aí.

O BCC abre 50 vagas por ano e neste ano matricularam-se 31 calouros. Os alunos da turma (para a qual dou monitoria da disciplina Introdução à Computação) me contaram que tem 26 pessoas indo assistir as aulas. Enquanto há jovens no Brasil inteiro querendo entrar neste curso, que considero um dos melhores (se não o melhor) do país, a sala da turma de 2010 está com metade de sua capacidade porque gente que queria fazer engenharia marcou a opção do BCC e não fez a matrícula.

A solução imediata é óbvia: tirar o Bacharelado em Ciência da Computação da carreira da Escola Politécnica.

Felizmente, não sou o único que penso isso. Então, após todo esse preâmbulo, informo em primeira mão: a Congregação do Instituto de Matemática e Estatística, em sessão ordinária realizada hoje (29/04) da qual tive o enorme prazer de participar, aprovou por unanimidade essa decisão, que já havia sido aprovada (também por unanimidade) dentro do Departamento de Computação.

Será criada nesse ano na Fuvest uma carreira chamada “Bacharelado em Ciência da Computação”, que a princípio terá 50 vagas, mas para a qual será convidado o Bacharelado em Ciência da Computação do ICMC-USP (São Carlos).

A decisão é fantástica e será fundamental pra vida de diversos futuros estudantes desta faculdade. Já estou ansioso pelo ano que vem…

Sobre piratas e consciência de classe

Tuesday, April 13th, 2010

“Certa vez, disseram a Eston que Jaime I da Inglaterra havia lhe oferecido o perdão. ‘Por que eu deveria obedecer às ordens de um rei’, perguntou ele, ‘quando eu mesmo sou uma espécie de rei?’ Este gracejo nos lembra vários discursos registrados na General History of the Pyrates, de Defoe, que insinua a existência de uma ‘ideologia pirata’ (se este não é um termo pretensioso demais), uma atitude meio proto-individualista-anarquista, embora não-filosófica, que parece ter inspirado os bucaneiros e corsários mais inteligentes e com mais consciência de classe. Defoe relata que um pirata conhecido como capitão Bellamy fez este discurso para o capitão de um navio mercante que ele tinha capturado. O capitão do navio mercante havia acabado de recusar um convite para se juntar aos piratas:

Lamento que eles não te deixem ter tua chalupa de volta, porque eu não faço mal a quem qeur que seja quando não é para meu próprio proveito. A chalupa que se dane, temos que afundá-la, e ela poderia ser útil a ti. Tu és um banana dissimulado, como o são todos que se submetem a serem governados por leis que os ricos fizeram para a própria segurança deles, e os malcriados covardes não têm a coragem, por outro lado, de defender o que conseguem por meio de logro. Mas que se danem: dane-se o bando de velhacos astutos, e vós, que estais a serviço deles, ó bando de mariquinhas estúpidos. Eles nos difamam, aqueles salafrários, quando só temos esta diferença: a de que eles roubam dos pobres sob a proteção da lei, sem dúvida, e nós espoliamos os ricos sob a proteção de nossa própria valentia. Não seria melhor então tu seres um de nós do que ires bajular aqueles patifes para conseguir emprego?

Quando o capitão respondeu que sua consciência não permitiria que ele infringisse as leis de Deus e dos homens, o pirata Bellamy continuou:

Tu tens uma consciência diabólica, ó velhaco. Eu sou um príncipe livre, e tenho tanta autoridade para travar guerra contra o mundo todo quanto quem tem cem navios no mar e um exército de cem mil homens nos campos. E isto minha consciência me diz: não adianta argumentar com covardes lamurientos que permitem que seus superiores os saiam chutando pelo convés à vontade.

Peter Lamborn Wilson, “Utopias piratas: mouros, hereges e renegados”, página 52 na tradução da Editora Conrad (2001)

Illich sobre a bicicleta

Tuesday, April 13th, 2010

“O homem move-se com eficácia sem ajuda de qualquer aparelho. Faz caminho a caminhar. A locomoção de cada grama do seu próprio corpo ou da sua carga, por cada quilômetro percorrido em cada dez minutos, consome-lhe 0,75 calorias. Comparando-o a uma máquina termodinâmica, o homem é mais rendível que qualquer veículo motorizado, que consome pelo menos quatro vezes mais calorias no mesmo trajecto. Além disso, é mais eficiente que todos os animais de peso comparável. [...]

O homem inventou, há um século, uma máquina que o dotou de uma eficiência maior ainda: a bicicleta. Tratava-se de uma invenção cheia de novidade, à base de materiais novos, impensados nos tempos do jovem Marx e combinados numa engenhosa tecnologia. [...] Com a bicicleta o homem ultrapassa o rendimento possível de qualquer máquina e de qualquer animal evoluído.

Além disso, a bicicleta não ocupa muito espaço. Para que 40 000 pessoas possam cruzar uma ponte numa hora movendo-se a 25 km por hora, é necessário que aquela tenha 138 m de largura se viajarem de automóvel, 38 m se viajarem de autocarro e 20 m se o fizerem a pé; em contrapartida, se forem de bicicleta, a ponte não necessita mais de 10 m de largura. Só um sistema hipermoderno de comboios rápidos a 100 km por hora e sucedendo-se a intervalos de 30 segundos conseguiria passar aquela quantidade de gente por uma ponte semelhante no mesmo tempo.

Não apenas em movimento, mas também estacionado, existe uma diferença enorme entre o espaço que ocupa o veículo potencialmente rápido e a bicicleta. No espaço em que se encontra 1 automóvel cabem 18 bicicletas. Para saírem dos parques de estacionamento de um estádio, 10 000 pessoas em bicicleta necessitam de uma terça parte do tempo que precisa o mesmo número de pessoas que utilizam autocarros.

Com bicicleta o homem pode cobrir uma distância anual superior, dedicando-lhe no total menos tempo e exigindo menos espaço para o fazer e muito pouca inversão de energia física que não seja parte do seu próprio ciclo vital.

Além disso, as bicicletas são baratas. Com uma fracção das horas de trabalho que a compra do automóvel exige ao gringo, o chinês, ganhando um salário muito mais baixo, compra a sua bicicleta, que lhe dura toda a vida, ao passo que o automóvel, quanto mais barato, mais depressa tem de ser substituído. O mesmo se pode dizer a propósito das estradas. Quanto maior for o número de cidadãos que se desloquem de automóvel para as suas casas, tanto mais se corrói o território nacional. O automóvel está, inevitavelmente, ligado à estrada, o que não acontece com a bicicleta. O ciclista, quando não pode ir montado na bicicleta, empurra-a. O raio diário de trajectos aumenta para todos por igual, sem que por isso diminua para o ciclista a intensidade de acesso. O homem que dispõe de uma bicicleta converte-se em dono dos seus próprios movimentos, sem estorvar o vizinho. Se há quem pertenda que em matéria de circulação é possível conseguir algo de melhor, tem agora oportunidade de o provar.

A bicicleta é um invento da mesma geração que criou o veículo a motor, mas as duas invenções são símbolos de avanços feitos em direcções opostas pelo homem moderno. A bicicleta permite a cada um controlar o emprego da sua própria energia; o veículo a motor, inevitavelmente, torna rivais entre si os utentes, por causa da energia, do espaço e do tempo. No Vietname, um exército hiperindustrializado não conseguiu derrotar um povo que se desloca à velocidade da bicicleta. Isto deveria fazer-nos meditar: talvez a segunda forma do emprego da técnica seja superior à primeira. Naturalmente, fica ainda por ver se os vietnamitas do Norte estão dispostos a permanecer dentro dos limites de velocidade que são os únicos capazes de respeitar os próprios valores que tornaram possível a sua vitória. Até ao momento presente, os bombardeiros americanos privaram-nos de gasolina, de motores, de estradas, e origaram-nos a empregar uma técnica também moderna, muito mais eficaz, equitativa e autónoma do que aquela que Marx poderia ter imaginado. Falta agora ver se, em nome de Marx, não se vão lançar numa industrialização quantititativamente tão superior àquilo que Marx pôde prever que se torne impossível a aplicação dos ideais por ele formulados.”

Ivan Illich, “Energia e Equidade” (dezembro/1973), página 70 na tradução da Editora Sá de Costa (1ª edição, Portugal, 1975)